O Instituto e a Universidade Federal não podem carregar sozinhos o peso da desigualdade
Cosme Rogério*
Uma expectativa cada vez mais naturalizada no debate público brasileiro é a de que a universidade e o Instituto Federal dêem conta, sozinhos, de responder a problemas sociais que se acumulam muito antes da porta de entrada do ensino médio e superior. Falta renda, falta alimentação, falta transporte, falta moradia, falta acompanhamento psicológico, falta segurança social básica, falta paz na família – e tudo isso, de algum modo, acaba desembocando no Instituto e na Universidade, como se eles pudessem, isoladamente, reparar aquilo que o Estado e a sociedade não conseguiram enfrentar em sua devida escala.
É evidente que o Instituto e a Universidade pública não podem ser indiferentes à realidade das e dos estudantes. Isso seria tanto um erro político como também uma falha ética. Não há democratização efetiva do ensino superior sem políticas de permanência. Garantir vaga não basta. É preciso garantir condições concretas para que a e o estudante permaneçam, aprendam, concluam sua formação e tenha dignidade durante esse percurso. Auxílio estudantil, apoio institucional e políticas de inclusão são, portanto, necessários e legítimos.
Mas é justamente aqui que se impõe uma distinção de papeis: uma coisa é o Instituto e a universidade exercerem sua responsabilidade social e assegurarem permanência estudantil. Outra, muito diferente, é convertê-la em instância substitutiva de todo um sistema de proteção social que falhou fora dela. O Instituto e a Universidade têm deixado de ser apenas lugar de formação, pesquisa, inovação e pensamento crítico para tornar-se, na prática, um grande centro de administração cotidiana da carência.
Essa mudança tem gerado custos altos, apesar de poucos investimentos. Ou seja, temos um déficit. O primeiro custo é institucional. Professores, técnicos e gestores passaram a lidar, cada vez mais, com demandas emergenciais que extrapolam a vocação acadêmica da instituição. Em vez de condições adequadas para ensinar, pesquisar, inovar e produzir conhecimento, multiplica-se a energia gasta na tentativa de remediar urgências sociais que se renovam sem cessar. E o Instituto e a universidade vão sendo comprimidos pela lógica da emergência permanente.
O segundo custo é humano. Em muitas situações, a e o estudante em situação de vulnerabilidade precisam provar reiteradas vezes a sua pobreza, a sua insuficiência, a sua dificuldade material. A necessidade virou formulário. O sofrimento, documento. A vida precária precisa ser tecnicamente demonstrada, conferida, classificada e encaixada em diversos critérios. O direito se converteu em benefício incerto, e a política pública passou a ser vivida como concessão disputada entre os que sofrem.
O terceiro custo, talvez o mais grave, é político. Quando o instituto e a universidade absorvem sozinhos os impactos mais agudos da desigualdade, o poder público se acomoda. A precariedade não é enfrentada em sua raiz: muda apenas de endereço. Em vez de políticas de renda, habitação, mobilidade, saúde e segurança alimentar, improvisa-se uma compensação localizada dentro do campus. O problema estrutural permanece intacto, mas ganha uma aparência de gestão. Vive-se de administrar efeitos, e abandona-se completamente as causas.
Esse modelo é perverso porque nos tem imposto uma dupla violência. De um lado, tem deixado as e os estudantes submetidos às mesmas estruturas de exclusão que marcaram suas trajetórias antes do ingresso no Instituto e na universidade. De outro, tem sobrecarregado as próprias instituições, exigindo delas soluções para problemas que não nasceram em seu interior e que não podem ser resolvidos apenas com boa vontade, sensibilidade social, esforço administrativo ou pedagógico.
É preciso reafirmar: defender a assistência estudantil não significa aceitar passivamente a transformação do Instituto e da universidade em pronto-socorro da omissão estatal. Ao contrário: defender a assistência de modo sério implica reconhecer seus limites e exigir que ela esteja articulada a políticas públicas mais amplas. O Instituto e a universidade devem acolher, incluir e garantir permanência, mas não pode ser tratada como o destino de todas as falhas do pacto social brasileiro.
Um instituto e uma universidade socialmente comprometida não é aquela que substitui o Estado, mas aquela que, sem abandonar ninguém, preserva sua missão própria: formar, produzir conhecimento, estimular pensamento crítico e contribuir para que a sociedade compreenda e enfrente as causas profundas da desigualdade. Se reduzida ao papel de administradora da escassez, o instituto e a universidade perdem tempo, energia e horizonte. Um país que enfraquece seus institutos e suas universidades, enquanto lhes cobram que resolvam tudo, está, na verdade, desistindo de pensar soluções verdadeiras.
O que precisamos defender não é menos assistência estudantil, mas mais Estado onde o Estado deve estar. Mais políticas públicas fora dos muros acadêmicos. Mais compromisso real com a justiça social. Mais responsabilidade governamental diante da pobreza e da exclusão. Pois, quando o instituto e a universidade passam a carregar sozinhos o peso da desigualdade, não é sinal de que ela se tornou mais forte, mas de que todo o restante fracassou.
E quando um país transforma seus institutos e suas universidades em abrigos improvisados para todas as suas ausências, já não está ampliando direitos: está apenas distribuindo melhor o abandono.
*Doutor em Letras e Linguística, Mestre em Sociologia, Especialista em História de Alagoas, Graduado em Filosofia e Professor do Instituto Federal de Alagoas – Ifal. Diretor Municipal do Sintietfal no campus Batalha.



