Fora do ar: Apagão do CNPq revela desmonte da ciência no país
Orçamento da principal agência de fomento do país 60% menor do que em 2013
Os sistemas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) estão há dias fora do ar. O chamado apagão do CNPq é mais um dos sintomas do desmonte da ciência no país e tem gerado sérios impactos na comunidade científica do Brasil.
Além da impossibilidade de acesso ao Currículo Lattes, toda a plataforma está indisponível, incluindo Diretório de Grupos de Pesquisa, Diretório de Instituições e Extrator Lattes. Outra plataforma do CNPq, a Carlos Chagas, que reúne informações de grupos de pesquisa e bolsistas, também está fora do ar.
Segundo nota da CNPq, “O problema que causou a indisponibilidade dos sistemas já foi diagnosticado em parceria com empresas contratadas e os procedimentos para sua reparação foram iniciados” e que “O CNPq já dispõe de novos equipamentos de TI e a migração dos dados foi iniciada antes do ocorrido. Independentemente dessa migração, existem backups cujos conteúdos estão apoiando o restabelecimento dos sistemas”.
A fragilidade dos sistemas de informática, já identificada muito antes da queda atual das plataformas, os cortes de verbas e a terceirização da TI são alguns dos problemas enfrentados pelo CNPq, como releva entrevista do presidente da Associação de Servidores do CNPq, Roberto Muniz, à Tecmundo.
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“Hoje, a gente está numa situação em que esses sistemas estão desatualizados, com constantes problemas que já são há anos apontados pelos pesquisadores e agora com esse apagão. A única explicação que a gente tem é, realmente, a falta de prioridade”, diz Muniz.
O servidor explica que desde sexta-feira, 23 de julho, salvo alguns serviços como o “programa SEI, que só trata de processos internos”, “o resto tudo está fora do ar”. Ele diz que, no geral, o CNPq “não está operando”.
“Para você ter a dimensão do problema, nós estamos sem e-mail. Os e-mails institucionais para nos comunicar com o CNPq não estão funcionando desde sábado (24), e também sem serviços de telefonia.” Ele explica que o órgão utiliza um serviço de telefonia por VoIP, baseado em internet.
“E isso tem nos preocupado muito, porque o CNPq ficou incomunicável”, diz Muniz. “É inconcebível que o principal órgão de financiamento da ciência e tecnologia no país esteja numa situação dessas. E ficar desde sexta-feira com todos os seus sistemas fora do ar. Isso prejudica centenas de pesquisadores, estudantes e bolsistas”, apontou.
O problema estrutural do funcionamento do CNPq tem sua causa na falta de investimento no Ministério da Ciência, Tecnologias e Informações (MCTI) e de prioridade com a ciência no governo Bolsonaro. Em 2021, a ciência brasileira teve o maior corte no orçamento federal, aprovado em 25 de março pelo Congresso Nacional.
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O orçamento total do MCTI neste ano é de apenas R$ 8,3 bilhões, 29% menor do que os R$ 11, 8 bilhões de 2020. Comparativamente, o valor para a ciência no Brasil no ano é um pouco maior do que os R$ 5,7 bi que serão destinados para os candidatos fazerem 45 dias de campanha em 2022.
Em decorrência disso, segundo dados do Siop (Sistema Integrado de Operações), o CNPq teve este ano o menor orçamento do século 21, no valor de R$ 1,21 bilhão. Em 2020 (R$ 1,48 bilhão), 2019 (R$ 1,6 bilhão) e 2018 (R$ 1,48 bilhão), os valores foram ligeiramente maiores. De 2013 (3,14 bilhão) a 2021, a redução chega a 60%.
Segundo reportagem da Superinteressante, um dos reflexos desses cortes é falta de verbas para pagamento de bolsas. Dos 3080 projetos de doutorados e pós-doutorados que foram aprovados para 2021, o CNPq só conseguirá pagar 13% deles, ou seja 396 bolsas.
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Para Muniz, além da falta de investimento em ciência e tecnologia, a falta de investimento em infraestrutura é outro problema enfrentado pelo CNPq. “A gente fala muito de falta de dinheiro para pagar bolsa, falta de dinheiro para pagar pesquisa, mas esquece de falar que está havendo falta de investimentos (e aí não é só dinheiro, é geral) para a infraestrutura.”
Segundo ele, atualmente, a área de TI da agência tem “pouquíssimos servidores concursados” e é quase toda terceirizada. Muniz destaca que problemas como esses, caso não sejam tomadas devidas providências, podem arranhar “a imagem de segurança e confiabilidade nos sistemas da instituição”. Além disso, com um sistema obsoleto, há também a perda de eficácia e eficiência no tratamento e na gestão.
“Na falta de servidores que hoje nós temos, trabalhar sem sistema é quase como voltar ao tempo das cavernas. Então, eu espero que haja investimento nisso para que não haja prejuízo maior no futuro”, afirma Muniz.
Com informações: Tecmundo




