8 de junho de 2020

Live do Sintietfal: Psicanalista debate sobre solidão em época de isolamento social

O professor e psicanalista do Ifal problematiza como a sociedade é afetada com o neoliberalismo

O professor e psicanalista do Ifal – campus Santana do Ipanema -, Leonardo Siqueira Antonio (Instagram: @leo_sociologia), debateu como a solidão tem afetado a sociedade antes e depois da pandemia. Essa discussão fez parte da live semanal do Sintietfal, realizado no dia 13 de maio e que teve como tema “Saúde emocional na quarentena”.

O professor começou sua fala ressaltando a importância de valorizar os sindicatos trabalhistas, bem como as entidades de classe e representativas como forma de reconhecimento e acolhimento. Além de pautas trabalhistas, tais grupos também cumprem um papel terapêutico, pois promovem a produção de experiências coletivas de significação do sofrimento.

Ele partiu da perspectiva do período de antes e depois do isolamento. Iniciando o tema, o professor falou sobre a ideia de solidão e que ela não está presente apenas neste período que estamos passando; muito pelo contrário, parte de um modelo tanto de educação quanto de sociedade que produz “solitários na multidão”.

Esse sentimento já era problematizado bem antes do isolamento social, principalmente nas áreas de saúde mental que problematizam os grupos sociais que a prática de suicídio tem aumentado, como, por exemplo, em alunos do ensino médio.

Essa solidão vem do modelo de sociedade em que vivemos, criando assim o sujeito chamado de “neoliberal”. Esse sujeito tem a necessidade de fazer uma grande quantidade de coisas no menor tempo possível, vendo a si e aos outros como propriedade ou ferramenta.

O sujeito produz uma coisificação das pessoas e de si mesmo e não consegue estabelecer laços sociais, atrapalhando suas relações afetivas nos diversos âmbitos da vida, como no mercado de trabalho, nas relações familiares e, até mesmo, no lazer, tendo todas as relações sociais colonizadas pelo tempo de trabalho.

“A relação da ansiedade e do pânico é presente em determinados grupos sociais. O processo de solidão não é necessariamente marca do atual momento de pandemia, mas ele é muito mais fruto de um tipo de laço que temos um com o outro. Nós temos no Brasil um grupo que está muito mais marcado pelo medo iminente da morte e da fome, e outro que está marcado por seus privilégios, sentindo-se solitária no do isolamento social”, afirmou o professor.

O sofrimento e as diferenças de classe

O docente do Ifal pondera que a pandemia é interessante de maneira negativa, pois expõe de forma muito clara, principalmente em discursos oficiais, a verdadeira prioridade neste momento. Para o professor, “com o isolamento travando a economia, a questão do crescimento econômico é posto em check”.

O discurso do ajuste fiscal, a questão de que o mercado para crescer é necessário enxugar direitos, etc, estabelece uma problemática dentro do neoliberalismo, que é a relação de crescimento econômico e produção de mortes.

“A forma que eu prefiro que o estado atue é uma forma de viver que não privilegie o consumo, a exclusão e o crescimento econômico em cima de vida de pessoas, porque a forma ética de viver é relacionada à defesa da dignidade das formas de vida e da liberdade”, afirmou o professor.

“O Brasil é um dos países onde a chave da tributação recai sobre os mais pobres. Em qualquer índice, seja por escolaridade, trabalho ou aquisição de renda, que a gente for olhar, a nossa base socioeconômica é a mulher negra, inclusive em taxação de imposto. Então, devemos pensar em processos de inclusão. Temos que pensar a questão da reforma tributária de uma maneira distributiva”, completou.

Na live, também falou que esse momento de pandemia e de crise têm mostrado os limites do neoliberalismo, já que a ideia do sujeito neoliberal “empreendedor” é uma forma de romantizar a precarização do trabalho, do sofrimento causado pelo desamparo de direitos sociais, e da valorização da concepção ilusória de meritocracia. E, quando esse sujeito não tem as condições reais de alcançar os padrões econômicos almejados, ele próprio acaba se culpabilizando pelo suposto fracasso.

“Temos, por um lado, a falta de reconhecimento do sofrimento das pessoas que têm como escolha o risco, com a falta de isolamento e de ter que enfrentar o Covid-19; e, por outro lado, um grupo de privilegiados, que conseguem fazer o isolamento, mas também, de uma certa forma, sofre por esse laço de entes queridos que não conseguem”, defendeu docente.

Sofrimento, sintomas e medicação

O professor Leonardo, no tema sobre sofrimento, sintomas e medicação, explicita a noção de sofrimento como uma experiência social.

“O sofrimento não é uma experiência patológica, mas uma experiência moral, o que 100% da humanidade vai sofrer, porque o sofrimento na verdade é essa espécie de linguagem que a gente estabelece e produz com outras pessoas. Então, se é uma experiência moral, ele depende também do que a gente chama de cultura, sociedade e de o que eu chamo de laço social”, manifestou o professor.

Os sintomas do sofrimento, afirma o professor, na maioria das vezes, é uma crítica sobre o estilo de vida do indivíduo e esse estilo de vida é socialmente partilhado. Quando se tem uma pandemia de ansiedade, apesar das diferenças específicas de cada sujeito na forma de sofrer, é necessário olhar para isso, também, a partir das formas culturais que a intensificam.

Leonardo fala também sobre a medicação e que muitos tratamentos podem ser mais eficazes. Explana também como a arte, a cultura e literatura nos ensinam que os sentimentos e as emoções podem ser coletivamente partilhados e que devemos trabalhar o sofrimento em uma base de experiência comum, pois assim esse repertório coletivo e pode produzir significação para as diversas modalidades de sofrimento.

A essa discussão, acrescentou que “nem sempre precisamos cair na medicalização, pois temos mecanismos sociais que nos ensinam com uma pedagogia de emoções dentro dela nos processos sociais”. E, para além disso, que “a cultura gera uma experiência em que você aprende moldes socialmente legítimos de expressar sentimentos, desse modo, podemos dizer que aprendemos a amar com a literatura, a odiar com o teatro, e a sofrer com os dramalhões”.

O docente conclui trazendo a problemática do fracasso da medicalização como medida exclusiva de tratamento, na qual depois de 40 anos dessa política de saúde mental, praticamente, não há pais ocidental que não esteja com índices de suicídio aumentando.

Por fim, ele faz mais uma crítica sobre a forma de trabalho e as disputas entre os próprios trabalhadores.

“Quando pensamos no modelo liberal do trabalho, que foi hegemônico até os anos 80, pensamos na criação dos RHs, por exemplo, porque o sofrimento de um trabalhador dentro da empresa pode ser ruim para os negócios. Nessa perspectiva, o bem-estar dos trabalhadores possuía outro status de problematização. Hoje vivemos outro tipo de paradigma no trabalho. Temos o modelo de uma produção de sofrimento que é parte do modelo neoliberal, um modelo que não produz laços, que produz disputa entre trabalhadores do mesmo setor e com isso cai na solidão. Hoje em dia é considerado um bom gerente aquele que faz uma boa gestão do sofrimento de seu setor, onde, de um lado, promove a competição entre os trabalhadores, e de outro, empurra a carga da pressão da competitividade até o limite emocional de seus empregadores”, conclui.

8 de junho de 2020

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