O Brasil tem o pior combate ao coronavírus no mundo, afirma docente da Ufal
Askery Canabarro integra equipe de estudiosos da evolução do Covid-19 no Brasil
O professor da Ufal e doutor em física, Askery Canabarro, demonstrou durante a live semanal do Sintietfal que o Brasil é o pior país no combate ao novo coronavírus no mundo até o momento. A entrevista com o tema “Cenário da Pandemia Brasileira” foi transmitida ao vivo nesta quarta-feira, 20 de maio, às 15h, nas redes sociais do Sintietfal.
“Se a gente olhar os outros países no dia 50, ou seja, 50 dias após a 10ª morte, praticamente todos começaram a deitar sua curva para a horizontal. Ou seja, diminuir o número de novos mortos. O Brasil é o único que segue uma tendência ainda de crescimento exponencial, de progressão geométrica, de dobrar a cada número de dias”, afirmou o professor.
“É fato que a gente tem o pior combate. Porque 60 dias após a primeira morte a gente continua crescendo e crescendo exponencialmente, com uma velocidade assustadora”, completou.
O físico alagoano faz parte de um grupo de estudiosos da área médica e da física, ligados à UFAL e ao UFRN, que estuda a evolução do Covid-19 no Brasil. No dia 26 de fevereiro, o Brasil registrou o primeiro caso de Covid-19. Hoje, são mais de 365 mil infectados e de 22 mil mortes. Até o momento, todas as projeções feitas pelo grupo se confirmaram.
“Em 3 de abril, a gente dizia para o Mandetta que, segundo nosso modelo, se a gente não fizer nada a gente vai ter 3 milhões de infectados. Na época que estava escrevendo, eu não acreditava nisso, parecia em algo de outro mundo. Mas agora é algo plausível. Se a gente considerar a subnotificação podemos ter em torno de 1 milhão de infectados”, disse o professor.
Na live, Askery explicou a Função Sigmoide e mostrou que a tendência do Brasil é seguir crescendo e ficar abaixo apenas dos Estados Unidos no número de infectados. “Eu fiz uma previsão hoje de que por volta do dia 27 de maio a gente pode ter em torno de 26 mil mortos no Brasil. O que é triste nisso? O triste nisso é que a gente acerta porque a gente não está fazendo nada tão significativo ainda para combater a doença. A gente não mudou nada tão substancial na nossa sociedade para proteger a economia e o sistema de saúde”, lamentou o físico.
Equação
O docente da Ufal demonstrou como modelou o Brasil, calculando a cada faixa etária o impacto da doença, a quantidade de leitos de UTI e a taxa de isolamento social, entre outros fatores, e a curva do modelo SIR – relação entre pessoas suscetíveis, infectados e removidos (recuperados ou mortos).
De acordo com o estudo, como não há vacina para a Covid-19 e o conjunto da população é alvo de contágio, só a separação das pessoas suscetíveis das infectadas pode conter a doença.
“As evidências teóricas são de que a quarentena é a nossa única arma preventiva para efetivamente reduzir o contágio. Na ausência de vacina ou medicamentos preventivos, a única coisa a fazer é o que se fazia há 100 anos, 200 anos. Uma doença que a gente não sabe como se prevenir o que se deve fazer é se afastar”, resumiu o docente.
Na live, o físico demonstrou com dois exemplos de isolamento social. “A gente tem uma evidência experimental que é Noronha. A ilha está naturalmente isolada, ela tem o isolamento natural e pode olhar um por um quem chega na ilha. Noronha chegou a ter 28 infectados e depois zeraram isso. Depois relaxaram e agora teve novo surto. A gente tem evidências que o isolamento funciona”, exemplificou.
De outra forma, Askery comparou duas cidades italianas Bergamo, onde não houve isolamento social, e Lodi, onde houve. No exemplo, ficou demonstrado o real controle da proliferação da doença a partir da definição da quarentena em cada local.
Em sua conclusão, defendeu a intensificação da quarentena no Brasil como necessária e urgente e apontou o percentual de 75% de isolamento como o ideal para os Estados mais vulneráveis.
“A covid é um perigo real!”
O professor Askery, em sua explicação, também deixou claro que o vírus em questão (SARCOV-2) representa “uma ameaça e um perigo maior porque ainda não há um tratamento” e possui uma vantagem evolutiva em comparação a outros coronavírus, pois as pessoas assintomáticas também o transmitem.
“Uma parcela dos infectados precisa de uma atenção hospitalar, precisa de tratamento hospitalar convencional ou unidade de tratamento intensiva. Talvez a mortalidade seja a arma mais fraca desse vírus, mas o número de pessoa que precisam de internamento em UTI é realmente a grande ameaça do vírus. Isso porque pode colapsar o sistema, ou seja, faltar leitos não só para quem tem covid mas para todas as outras doenças que evoluam para a fase grave. A Covid não é a doença que mais mata, mas por não ter leito de UTI você acaba tendo uma mortalidade indireta muito alta”, acrescentou.
De forma comparativa, para entender o impacto do Covid-19 no Brasil, Askery traduziu as mais de 18 mil mortes registradas até o dia da live (20/05) como 256 acidentes como o da chapecoense e 60 desastres como o de Brumadinho.
Live
O vídeo da live “Cenário Nacional da Pandemia: O Brasil é o pior país no combate à Covid-19? Por que? Como mudar?” está disponível no facebook e no instagram.





