31 de maio de 2019

Crônica: Para não dizer que não falei das flores

Há uma passagem no Príncipe, de Maquiavel, que sempre cito nas apresentações do teatro-oficina nas escolas públicas, que é precisamente onde ele diz que mais vale ser temido do que amado. Os homens são ingratos, dissimulados e o amor é eterno conforme suas conveniências, mas o temor implica o medo de uma punição e esse medo é para sempre. É o que aconteceu e acontece conosco.

Vivemos durante décadas sob o domínio do medo. Um medo tal que Drummond transformou em uma das suas mais belas poesias: “Congresso Internacional do Medo”. Era o medo que esterilizava os abraços. O amor havia se refugiado no “mais abaixo dos subterrâneos”. Mas não há noite que não amanheça. Um dia o povo acordou e se descobriu sem medo. Arrancou o grito preso na garganta e foi às ruas enfrentar as baionetas caladas em ruidosos gritos de guerra. E no meio da fumaça da pólvora e ataques caninos, a primavera floriu. Novos ventos, novos tempos. Hora de se recolherem as mágoas e enterrarem seus mortos. E se desenterrarem as esperanças que resistiram à mais vil brutalidade.

Desacostumados com a democracia, ficamos atarantados com a liberdade dos novos tempos. Thiago de Mello, em “Noturno do Paraná do Ramos”, foi ao ponto certo: “É certo que recuperamos a fala, mas ainda não aprendemos a pronunciar o nome das flores que arrebentam na praça”. E assim foi: sem saber o nome, adotamos as ervas daninhas como flores no nosso jardim.

Tempus fugit. Ano: 2016. Diante da ameaça do desmonte do ensino público, nasce a primavera juvenil nas universidades públicas e institutos federais. Em Alagoas, uns garotos imberbes e garotas no primeiro ciclo menstrual ocuparam alguns campi do Instituto Federal. Em Maceió, ocupação total numa tarde de Verão. Em vez de amor dos gestores em forma de apoio, pois a garotada assumia a luta pelos seus direitos, o que tiveram foi o temor maquiavélico. Cortaram água, energia e mandaram trancar os sanitários. A primeira noite só não foi de terror porque a maioria dos professores fez pressão e ameaçou ir à Justiça. Eram garotos que despertavam a consciência cidadã e mereciam respeito pela coragem do momento, não marginais tomando o campus de assalto.

As noites seguintes não foram de menos medo, mas a resistência tornou-se sólida. Vivia-se com o fantasma da invasão de um pequeno exército de alunos convocados pela fúria da extrema-direita. Professores ensandecidos instigavam o ódio nas redes sociais desbancando o movimento e jogando aluno contra aluno. E numa noite de anunciada agonia, um pequeno exército de marionetes pulou o portão tão vigiado pela segurança patrimonial que não viu nada, invadiu o campus e se os garotos acampados não estivessem de vigília teriam sido massacrados.

Sabia-se que, por si só, esses garotos invasores não ousariam tanto. Houve voz mais poderosa por trás da invasão. Disseram que iriam investigar, mas morreu no silêncio cúmplice de todos nós. Afinal, não morreu ninguém.

Que lição podemos tirar da ocupação senão a de que não aprendemos a lidar com o nosso medo e covardia? Finda a ocupação, vieram as férias e pernas pro ar que ninguém é de ferro. No retorno às aulas ninguém se lembrava mais do acontecido. Nossa memória é fraca para certas coisas que queremos esquecer.

Ano: 2019. O governo da ultradireita estrangula as universidades e institutos federais. O motivo é óbvio: acabar com essas instituições de ensino. Um professor, consciente do seu papel de educar pela cidadania, fala a alguns alunos reunidos no pátio do Instituto Federal de Alagoas, em Maceió, em que há uma movimentação voluntária em defesa da instituição. Um aluno grava a reunião e envia para os cães das redes sociais. O canil se reúne e começa a ladrar ameaçadoramente. O ministro da Educação, que não tem mais nada a fazer na vida a não ser perseguir professores, se junta à turba raivosa para anunciar que vai demitir o professor, como se este fosse um empregado seu. E a matilha raivosa mostra seus dentes maculados de sangue em orgia de vampiros na madrugada a sugar o pescoço de inocentes.

E assim segue a vida neste país de delatores e injustiçados. O aluno traidor de todos nós também será vítima do seu próprio ato, pois o mal chegará para todos se nos acovardarmos diante da atitude dos escrotos. Lutemos pelos nossos direitos para não recitarmos Drummond em seus versos finais:

“[…]
ou cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.

Professor Wanderlan, nossa solidariedade neste momento de extrema angústia e apreensão. A Esperança vai vencer o medo.

Autoria:

Tom Torres
Representante do 7º período de Letras e
Coordenador do Clube de Leitura e Teatro Mandacaru.

*Geraldo Vandré

31 de maio de 2019

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