Entrevista: “Mais que nunca precisamos da história para nos reconhecermos enquanto classe”
Roberval Santos apresenta livro sobre a história de luta dos/as trabalhadores/as dos Correios
O professor do IFAL e membro do Conselho Fiscal do Sintietfal, Roberval Santos da Silva, conversou com a Ascom do Sintietfal sobre seus 14 anos de pesquisa sobre os carteiros e a luta da categoria na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, que resultou no livro “Filhos do sol: carteiros e organização de classe nos Correios brasileiros (1934-2002)”.
Fruto de suas pesquisas para elaboração da dissertação de mestrado (UFAL), intitulada: Memória, Identidade e Ações Coletivas: o movimento sindical nos Correios de Alagoas (1985-2002), o livro publicado no final de 2018 resgata a história desde a fundação dos Correios no Brasil até o período da luta contra o governo neoliberal de FHC, destacando a organização de classe da categoria, primeiro através da Associação dos Trabalhadores dos Correios de Alagoas (ASCOR) e depois como Sindicato dos Trabalhadores na Empresa de Correios e Telégrafos em Alagoas (SINTECT-AL).
Na entrevista, o professor e mestre em história ressalta a importância da memória, identidade e preservação histórica das lutas para o movimento sindical. “As experiências podem e devem ser contadas pelas classes “subalternizadas” expressando suas angústias, seus dilemas, seus sonhos e suas percepções sobre o mundo e sobre o trabalho. Seremos donos do nosso próprio destino quando de modo crítico desenvolvermos a capacidade de nos conhecer e reconhecer enquanto classe”, afirma.
Confira a entrevista:
Ascom – O seu livro Filhos do Sol é uma pesquisa sobre os carteiros e o movimento sindical nos correios. O que te motivou a resgatar a história dessa categoria?
RS – Fui carteiro em Alagoas de 1996 a 2009. Neste período, além de entregar cartas fui conselheiro fiscal e depois secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores na Empresa de Correios e Telégrafos em Alagoas. Em 2000, entrei na Ufal para cursar licenciatura em História quando, a partir de 2005, passei a investigar a trajetória de luta dos trabalhadores postais e a origem de seu movimento sindical. Ao procurar as referências bibliográficas sobre o tema, percebi que no Brasil praticamente não havia pesquisas sobre essa categoria de trabalhadores e que se não fosse feito algo a tendência seria essa história se perder com o passar do tempo. Desde então, iniciei um processo de pesquisa que já dura 14 anos.
Ascom – No livro, você resgata do período da fundação dos Correios, passando pela Ditadura, fundação da Associação (Ascor), redemocratização do país, transformação em Sindicato, até a luta contra o neoliberalismo e o governo FHC. Como a categoria sentiu o impacto dessas mudanças?
RS – Assim como o serviço postal, os trabalhadores dos Correios passaram por um processo de grandes transformações ao longo desse processo histórico. Obviamente que os impactos ocorridos na sociedade e na estatal foram sentidos pelos ecetistas e levaram a diversas reações conforme relatadas no livro. Dentre estas, o aprofundamento das perseguições contra os trabalhadores pelos militares na administração pública da empresa e a necessidade de uma organização sindical que defendesse a categoria postal são as mais importantes para se compreender parte da história dos trabalhadores postais. O que posso dizer é que eles travaram grandes lutas para, mesmo após o fim do regime civil-militar no País, garantir uma rotina democrática nos Correios em meio a uma cultura administrativa militar arraigada na estatal e reproduzida por diversos gestores civis nos anos seguintes a redemocratização.
Ascom – Sobre a construção do movimento sindical nos Correios, quais os principais desafios e conquistas você pode elencar?
RS – Acredito que a principal conquista ainda está a caminho. Refiro-me ao fim da cultura administrativa-militar que continuou vigorando na estatal após o fim do regime de exceção iniciado em 1964. Claro que com a organização e a atividade sindical comprometidas em defender os trabalhadores essa cultura militar praticada por civis formados na antiga Escola Superior de Administração Postal diminuiu bastante nos últimos anos. Mas, mesmo durante e após os governos do PT à frente do País, essa lógica administrativa militar ainda persiste enquanto prática de vários gestores em atividade nos Correios. Quanto aos desafios mais recentes, destaco o trabalho do movimento sindical nacional dos trabalhadores dos Correios para evitar que a estatal seja privatizada, além da luta pela permanência do que restou das conquistas históricas da categoria. Várias delas já foram perdidas no governo de Michel Temer com o aval do Tribunal Superior do Trabalho.
Ascom – Quando você ingressou como docente no IFAL, quais as semelhanças e diferenças você enxerga na categoria enquanto experiência classista de lutas?
RS – São duas categorias bastante distintas com funções específicas na sociedade. Entretanto, uma semelhança inerente a elas diz respeito a contínua necessidade da organização sindical para resistir as mudanças prejudiciais à classe trabalhadora. Independentemente de você ser carteiro, professor ou profissional da educação é sempre um grande desafio fortalecer a consciência de classe para enfrentar a cultura excludente e de exploração dos setores econômicos conservadores que tentam a todo custo atacar e subalternizar os trabalhadores. Neste momento difícil pelo qual passamos é um alento saber que as duas categorias têm sindicatos sérios comprometidos com suas classes e muito atentos as ações do governo federal nos últimos anos.
Ascom – No livro você pontua que “estruturas sindicais bem estabelecidas contribuem para a construção da identidade participatória”. Como isso se dava nos Correios e como você vê isso hoje no Ifal?
RS – Como disse, os sindicatos podem contribuir para a construção da identidade de classe e das ações coletivas. Mas, o sindicato por si só não é suficiente. Para se formar uma identidade de classe é necessário um longo caminho cheio de percalços que deixam experiências, marcas profundas que precisam ser tratadas como memórias a serem preservadas. Trata-se de um processo histórico de longa duração que pode culminar numa consciência de classe, mas que infelizmente poucas lideranças sindicais percebem. Esse fato não é uma exclusividade de Alagoas. É um problema nacional que precisa ser enfrentado – o da falta de consciência e de identidade de classe em diversas categorias. No Sintietfal tenho percebido essa preocupação através do “Projeto Memória Sindical e Vida no Trabalho” que tem como finalidade recuperar os documentos e depoimentos de trabalhadores que vivenciaram a trajetória de luta e a organização sindical dos profissionais federais do ensino técnico. Nos Correios e no Ifal essa identidade participatória está em constante construção e sua intensidade dependerá da constante capacidade de luta de ambas as categorias. Seus altos e baixos variam muito de acordo com a conjuntura político-econômica nacional e local.
Ascom – Ao apresentar o livro, você afirma para os sindicatos, de maneira geral, que “a história dos embates da classe trabalhadora e das organizações classistas é uma das grandes dívidas com a sua própria história”. Qual a importância da Memória, identidade e preservação histórica das lutas?
RS – Ainda temos poucos trabalhos sobre a história e a memória dos trabalhadores em geral. Em Alagoas, essa dívida continua imensa apesar das pesquisas produzidas e publicadas pelos professores Osvaldo Maciel, Jailton Lira e alguns outros pesquisadores. É necessário que os sindicatos e os movimentos sociais incentivem essa escrita. O próprio trabalhador, aquele que vai para a Universidade após um dia exaustivo de trabalho precisa tomar as rédeas de sua própria história e dar voz para ela. Esta história não pode ser contada sob a ótica e a supervisão da classe dominante. É preciso uma guinada nesse contar a história. As experiências podem e devem ser contadas pelas classes “subalternizadas” expressando suas angústias, seus dilemas, seus sonhos e suas percepções sobre o mundo e sobre o trabalho. Seremos donos do nosso próprio destino quando de modo crítico desenvolvermos a capacidade de nos conhecer e reconhecer enquanto classe através de pesquisas que tenham um olhar proletário da História, da Literatura, da Sociologia e de tantas outras ciências capazes de proporcionar o senso crítico e a reflexão sobre a identidade e a história de vida dos indivíduos e das classes as quais pertencem. Agora, veja bem: tudo isso não é simples de realizar quando as instituições sindicais não têm uma cultura de resgate e preservação de seus arquivos, de suas memórias para que toda a história de resistência dos trabalhadores seja publicizada a fim de se criar raízes a serem compreendidas pelas futuras gerações de proletários. Esta é uma importante missão para o movimento sindical.
Ascom – Como você enxerga a atual conjuntura do país e os ataques aos serviços públicos, direitos dos trabalhadores e às organizações dos trabalhadores?
RS – Vivemos um momento de graves ataques aos trabalhadores e a sua existência enquanto classe autônoma. O momento é crítico porque hoje há uma tentativa de implantação de um pensamento hegemônico conservador no País a partir de uma lógica elitista que não leva em consideração a complexidade e a heterogeneidade do povo brasileiro. Aniquilar o princípio do contraditório e a autonomia sindical que norteiam os movimentos sociais trará graves consequências para a estabilidade social e para a democracia que deve ser plena e igualitária. Foi por este modelo democrático que os sindicatos e os trabalhadores sempre lutaram. Mais que nunca precisamos da história para nos reconhecermos enquanto classe e fazermos o enfrentamento contra o que se apresenta no horizonte: tempos difíceis e de muitos ataques contra a dignidade humana e a liberdade de associação. Esta já é uma perversa realidade entre nós. Precisamos resistir!



